Scarlet Marton
Scarlet Marton é filósofa e professora da USP. Trata-se de uma scholar nietzschiana de mão cheia. Todavia, mais que isso, Scarlet é uma filósofa leitora de filósofo; sua interpretação de Nietzsche é bastante original, colocando-o antes com um cosmólogo (no estilo dos pré-socráticos) que como metafísico ou simplesmente como uma crítico da metafísica. Sua tese de doutorado de título Nietzsche, das forças cósmicas aos valores humanos diz muito do percurso que ela escolheu. O texto foi publicado em livro originalmente pela Editora Brasiliense, tornando-se leitura obrigatória para quem quer conhecer Nietzsche. Aposentada da sala de aula, atualmente a filósofa gasta seu tempo em pesquisas, alimentado seus grupos de estudos no Brasil e na Europa. A escrita de Scarlet honra a escrita de Nietzsche, pois ela é dona de um estilo próprio, preocupada com a fluência do texto e até mesmo com a cadência, caso se queira ler em voz alta. Está na ativa, publicando vários trabalhos interessantíssimos, que haviam sido projetados e adiados por conta do trabalho em sala de aula.
Olgária Matos
Olgária Matos é filósofa e professora da USP e, uma vez aposentada, tornou-se docente da UNIFESP. Especializou-se em Escola de Frankfurt, com destaque para Walter Benjamin. Sua tese de livre-docência foi publicada em livro originalmente pela Brasiliense, com o título O iluminismo visionário. Neste e outros livros a filósofa expõe não só uma visão original de Benjamin, mas, mais que isso, e talvez de modo único, alerta para uma compreensão especial a respeito da modernidade. Descartes é tomado então como um pensador barroco, na linha de sugestões benjaminianas. Proprietária de uma cultura humanística invejável, Olgária Matos é pensadora de assuntos variados e nos anos oitenta e noventa teve presença na mídia impressa escrevendo sobre mulher, política, vida urbana, Escola de Frankfurt, corpo etc. Ainda presente nas salas de aula, Olgária Matos representa a fina flor da geração uspiana formada nos anos sessenta e, portanto, extremamente politizada. Ao mesmo tempo, é entusiasta da universidade antes como templo de cultivo do saber que como curso superior profissionalizante.
Marilena Chauí
Marilena Chauí é filósofa e professora da USP. Foi secretária da cultura da cidade de São Paulo (gestão de Luiza Erundina, na época filiada ao PT) e mantém uma militância de esquerda bastante ativa. Essa sua postura nem sempre a ajuda nos escritos filosóficos de abordagem do cotidiano. Todavia, isso não a atrapalha quando trata de assuntos filosóficos mais técnicos, especialmente a sua visão de Marx, embasada por uma imensa cultura filosófica. Para além de ser uma scholar espinoziana, Marilena Chauí esteve durante décadas na imprensa escrita, defendendo pontos de vista interessante sobre mulheres, política, Partido dos Trabalhadores, a Universidade brasileira, cultura etc. A filosofia brasileira deve a ela o pioneirismo quanto à ideia de que o filósofo deve ultrapassar os muros da academia. Ela fez isso em vários sentidos, inclusive com preocupação de formação de jovens, para os quais produziu manuais temáticos e históricos. Seu livro publicado pela Cia das Letras, A nervura do real, sobre Spinoza, sistematiza seus estudos filosóficos de mais de três décadas e é leitura obrigatória para qualquer um que queira abordar assuntos sobre tal filósofo.
Rubens Rodrigues Torres Filho
Rubens Rodrigues Torres Filho é professor aposentado da USP. Além de filósofo é um poeta original e arrepiante. Sua cultura imensa se expressa não raro em uma sutilíssima ironia e um humor só para abençoados. Foi sem dúvida um pioneiro e mestre maior da chamada “leitura estruturalista” em história da filosofia, exibida em livros e sala de aula com inigualável brilhantismo. Continua sendo a referência principal entre nós, brasileiros, a respeito de um filósofo muito citado e pouco estudado, Fichte. Além disso, Rubens Rodrigues Torres Filho é daqueles tradutores do alemão que todo outro tradutor tem de consultar. Um de seus livros se tornou um clássico da produção nacional em filosofia: publicado originalmente pela Brasiliense, Ensaios de filosofia ilustrada contém um dos mais significativos comentários a respeito do célebre ensaio de Kant “Resposta à pergunta ‘O que é o Iluminismo?’”.
Maria Lúcia Cacciola
Maria Lúcia Cacciola é professora aposentada da USP. Especialista em Schopenhauer, essa filósofa publicou pela Edusp o livro Schopenhauer e a questão do dogmatismo, que é, sem dúvida, um marco nos estudos sobre o filósofo alemão no Brasil. Cacciola não é de escrever muito e restringiu seu trabalho à academia, especialmente na formação de gerações de pesquisadores. Sua visão da história da filosofia e sua compreensão geral da importância da Schopenhauer no panorama da filosofia moderna, em especial quanto ao quesito “saber do corpo”, que esse filósofo introduz, faz de Cacciola uma daquelas mestras que é necessário conhecer.
Bentro Prado Jr
Bentro Prado Jr. foi professor emérito da USP e faleceu como professor da UFSCar. Foi um filósofo que não escreveu muito, mas deixou ensaios com ideias originais na leitura de Rousseau, Hume, Bergson, Deleuze, Freud etc. Bento Prado cultivou uma prática que tem desaparecido ultimamente, que é o diálogo filosófico entre pares. Não só vinha nas aulas de colegas como fazia questão de publicar resenhas críticas sobre seus livros. Uma das principais ideias de Bento Prado, nem sempre consideradas nos textos dedicados a ele, é a respeito da noção bergsoniana de “familiaridade”, com a qual tenta solucionar problemas colocados por Wittgenstein contra a “linguagem privada”. Bento Prado destacou-se por praticar entre nós, com bom humor e amizade, o trânsito entre filosofia continental e filosofia analítica, que em geral é algo desconhecido dos mais jovens, formados hoje em dia em cânones de especialismos que nunca se superam.

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